Encontrei a árvore numa curva do caminho.
Ela não estava escondida.
Também não parecia querer ser vista.
Crescia inclinada para um lado, depois voltava para o outro, como se tivesse aprendido a conversar com ventos que eu não conheci.
Parei.
Não para endireitá-la.
Para perceber a beleza de uma forma que não pediu licença à linha reta.
O desenho que o caminho deixou
Quem olha depressa pode chamar de torto tudo aquilo que não cresce como esperava.
Mas aquela árvore não era uma tentativa incompleta de outra árvore.
Era inteira.
Seu tronco guardava desvios.
Seus galhos escolhiam espaços diferentes.
Uma parte recebia sol.
Outra oferecia sombra.
E as raízes, invisíveis para mim, sustentavam o desenho todo.
O Cerrado está cheio dessas formas que não cabem em régua.
Talvez seja por isso que eu me sinta tão acompanhada aqui.
Quantas vezes nos chamaram de excesso
Existe uma idade em que começamos a aprender o tamanho permitido.
Não fale tão alto.
Não sinta tanto.
Não faça perguntas demais.
Não mude agora.
Não ocupe esse lugar.
Aos poucos, a gente confunde pertencimento com poda.
E passa a retirar de si tudo o que poderia incomodar o jardim dos outros.
Nem sempre essa poda deixa marcas visíveis.
Às vezes ela aparece na frase que engolimos.
No trabalho que aceitamos para não decepcionar.
Na alegria que diminuímos para ninguém se sentir menor.
No cansaço de vigiar a própria forma.
A árvore não explica a curva
Eu não sei o que aconteceu enquanto ela crescia.
Não sei de onde veio cada vento.
Não sei qual galho perdeu.
Não sei quanto tempo levou para encontrar outra direção.
E não preciso inventar uma história para respeitá-la.
Há uma violência delicada em exigir que toda forma diferente apresente uma justificativa.
Como se alguém somente pudesse ser acolhido depois de explicar cada curva.
Como se a dor precisasse virar documento.
Como se a singularidade tivesse que provar que merece espaço.
O que sustenta nem sempre aparece
Fiquei olhando o chão ao redor.
Pedra.
Capim seco.
Flores pequenas.
A sombra recortada no solo.
As raízes não se mostravam.
Mesmo assim, estavam trabalhando.
Isso me fez pensar nos apoios que ninguém vê.
Uma conversa guardada.
Uma avó que ensinou uma oração.
Uma amiga que ficou em silêncio ao lado.
Um tratamento seguido com cuidado.
Uma decisão pequena repetida por muitos dias.
Nem toda sustentação precisa ser anunciada para ser verdadeira.
Pertencer não é parecer igual
Aquela árvore fazia parte da paisagem justamente com sua curva.
O vale não pediu que ela se parecesse com a árvore seguinte.
As pedras não recuaram diante da diferença.
O céu não comparou copas.
Há lugares humanos, porém, em que pertencer parece depender de imitação.
Vestir a mesma certeza.
Escolher o mesmo caminho.
Contar a própria vida com as palavras aprovadas pelo grupo.
Quando isso acontece, talvez o problema não esteja na nossa forma.
Talvez o espaço tenha desaprendido a conviver com variedade.
Nem toda curva pede correção
Isso não significa romantizar sofrimento.
Uma árvore ferida precisa de cuidado.
Uma pessoa em sofrimento também.
Quando há dor persistente, risco, dificuldade de viver a rotina ou sintomas físicos e emocionais importantes, procurar profissionais de saúde é parte do caminho.
O que não precisamos é transformar toda diferença em doença.
Nem chamar de cura o esforço de caber.
Cuidado pode ser outra coisa.
Pode ser oferecer condições para que a vida encontre uma forma possível.
As flores não corrigem ninguém
No Quintal das Marias, eu não encontro uma flor para tornar alguém aceitável.
Também não preparo essências para fabricar uma versão obediente de quem chega.
A escuta começa antes.
Quem é essa pessoa agora?
O que nela pede presença?
Que movimento está tentando nascer?
Uma Essência Floral ou um Buquê Floral, quando fazem parte do encontro, caminham como práticas complementares.
Não substituem avaliação, diagnóstico, psicoterapia, tratamento médico ou medicamentos prescritos.
Não prometem endireitar a vida.
Acompanham.
A sombra também nasce da curva
Quando o sol desceu um pouco, a sombra da árvore ficou comprida.
Ela alcançou um pedaço de chão que um tronco reto talvez não alcançasse.
Ali havia um lugar fresco.
Um abrigo breve para insetos, capim e tudo o que meu olhar não conseguia nomear.
Pensei nas partes de nós que foram chamadas de inadequadas.
A sensibilidade que percebe primeiro.
A cautela que impede uma pressa.
A intensidade que sustenta uma causa.
A demora que permite escutar.
Quando encontram espaço e limite, algumas curvas oferecem sombra.
Uma pergunta para levar do caminho
Antes de voltar, encostei a mão numa pedra.
Não toquei a árvore.
Alguns encontros ficam mais inteiros quando mantemos distância.
E me perguntei:
qual parte de mim eu continuo tentando endireitar apenas para que outra pessoa não precise aprender a me encontrar?
Não encontrei resposta naquele instante.
O Cerrado não costuma responder depressa.
Ele entrega uma pergunta e deixa que a gente caminhe com ela.
Voltar sem uma forma pronta
Desci o caminho enquanto a luz mudava.
A árvore ficou para trás.
Ou talvez tenha vindo comigo de outro jeito.
Não como lição fechada.
Como lembrança.
Existe vida que cresce em linha reta.
Existe vida que precisa contornar pedra, vento, seca e distância.
Nenhuma delas deve ser medida apenas pela semelhança.
Talvez pertencer comece quando a gente encontra um lugar onde não precisa esconder a curva.
E talvez o primeiro lugar seja dentro.
Não para aceitar tudo sem cuidado.
Para olhar a própria forma com menos julgamento e mais verdade.
A árvore continuou ali.
Torta, se alguém quiser chamar assim.
Inteira, para quem tiver tempo de olhar.
Assim é!
Guardar uma curva no caderno
Naquela noite, desenhei a árvore.
Não ficou parecida.
Meu lápis tentou organizar o que o tronco tinha feito sem pedir organização.
Apaguei.
Desenhei outra vez.
Depois parei de corrigir.
O desenho não precisava substituir a árvore.
Precisava apenas guardar o encontro.
Talvez possamos fazer isso conosco.
Registrar sem reduzir.
Contar sem transformar cada desvio em erro.
Deixar que a memória preserve movimento, e não uma versão polida para mostrar aos outros.
Há histórias que ficam mais verdadeiras quando a borracha descansa.
