Eu ouvi a água antes de vê-la.
Era um fio pequeno.
Quase escondido entre duas pedras.
A Chapada amanhecia sem pressa.
O sol ainda procurava o caminho por entre as folhas.
E aquela água já estava ali.
Chegando.
Não sei por quanto tempo caminhou no escuro.
Não sei quantas camadas atravessou.
Sei apenas que, quando apareceu, não pediu aplauso.
Seguiu.
A nascente não começa onde os olhos alcançam
A gente chama de começo o lugar onde consegue ver.
O primeiro passo anunciado.
A decisão contada.
A porta aberta.
Mas há começos que acontecem muito antes.
Enquanto ninguém percebe.
Uma pergunta que volta.
Um incômodo que já não aceita o nome antigo.
Uma vontade que ainda não aprendeu a falar.
Uma despedida que começa por dentro.
O mundo vê a nascente.
A alma conhece o caminho subterrâneo.
Nem todo silêncio é ausência
Durante muito tempo eu confundi silêncio com parada.
Achava que, se nada mudava por fora, nada estava acontecendo.
O território me ensinou outra medida.
Debaixo da pedra existe movimento.
Debaixo da terra existe procura.
Debaixo da palavra que não chega existe uma escuta acontecendo.
Nem todo silêncio está vazio.
Alguns silêncios estão reunindo água.
Preparando passagem.
Escolhendo por onde nascer.
A pedra também participa do caminho
É fácil olhar para a pedra como impedimento.
Dura.
Fechada.
Antiga.
Mas a água que encontrei não discutia com ela.
Também não fingia que ela não existia.
Contornava.
Esperava.
Encontrava uma fresta.
Há limites que não foram colocados para nos castigar.
Há limites que pedem outro gesto.
Outro tempo.
Outra direção.
A pedra não ensinou desistência.
Ensinou forma.
O tempo invisível não é tempo perdido
Vivemos cercadas pela urgência de mostrar.
Mostrar resultado.
Mostrar certeza.
Mostrar que já passou.
Mostrar que sabemos para onde vamos.
Mas existem travessias que perdem força quando são arrancadas antes da hora.
Nem toda semente precisa ser desenterrada para provar que começou.
Nem toda água precisa correr na superfície.
O que está se formando merece abrigo.
Recolhimento.
Proteção.
Paciência.
O invisível também trabalha.
Há perguntas que precisam de sombra
Nem toda pergunta cresce sob o olhar de todos.
Algumas precisam ficar perto do peito.
Longe do conselho apressado.
Longe da opinião de quem já escolheu a resposta.
Uma pergunta protegida não é uma pergunta escondida.
É uma pergunta que ainda está criando raiz.
Podemos escolher com quem partilhar.
Podemos dizer ainda não sei.
Podemos voltar a ela quando houver chão.
A sombra não nega a luz.
Ela prepara os olhos.
Quando a água encontra uma fresta
Chega um momento em que o caminho por dentro toca o lado de fora.
Às vezes vem como palavra.
Não quero mais.
Preciso descansar.
Quero tentar.
Estou pronta para pedir ajuda.
São frases pequenas.
Mas carregam uma viagem inteira.
Quem escuta apenas a frase pode achar que nasceu de repente.
Quem a pronuncia sabe quantas pedras ela atravessou.
Por isso não devemos apressar a explicação de um começo.
Há águas que chegam cansadas de caminhar no escuro.
A nascente não conhece o rio inteiro
Ela não espera ter o mapa completo para sair da pedra.
Oferece o que tem.
Um fio.
Uma direção.
Um próximo encontro com a terra.
Talvez a gente também possa começar assim.
Sem a promessa de entender tudo.
Sem exigir que o primeiro passo carregue o destino inteiro.
Clareza não é enxergar até o fim.
Às vezes clareza é reconhecer a fresta possível.
E passar por ela.
As margens também cuidam
Quando apareceu, a água não se espalhou por todo lado.
A terra desenhou margens.
Pedras pequenas deram contorno.
Raízes seguraram o chão.
O fluxo encontrou sustentação.
Aprendi que liberdade não é ausência de forma.
É poder correr sem se perder de si.
Uma rotina pode ser margem.
Uma conversa honesta pode ser margem.
Um não dito no tempo certo pode ser margem.
Um cuidado profissional pode ser margem.
Margem não prende a água.
Ajuda a água a seguir.
Também há encontros no percurso
Nenhuma água chega ao rio sendo apenas começo.
Ela encontra terra.
Encontra folhas.
Encontra outras águas.
Recebe.
Entrega.
Muda sem perder sua natureza.
Há pessoas que chegam assim em nossa vida.
Não para decidir o caminho.
Para oferecer presença enquanto atravessamos.
Companhia.
Testemunho.
Escuta.
Às vezes uma margem também tem nome.
Há virtudes que nascem no escuro
Nem tudo o que precisamos aparece na luz da resposta imediata.
Há virtudes que amadurecem enquanto esperamos.
Confiança.
Discernimento.
Entrega.
Presença.
Coragem.
Não a coragem que corre sem olhar.
A coragem da água.
Que toca a pedra.
Escuta a forma.
E continua procurando vida.
O que as flores me lembram
Quando preparo uma essência no Quintal, não peço à flor que empurre ninguém para fora da pedra.
As flores não fabricam atalhos.
Não apagam medo.
Não substituem escolhas.
Elas chegam como companhia sutil.
Como lembrança de virtudes que já existem.
O cuidado vibracional não trata doenças e não substitui acompanhamento médico ou psicológico.
Ele pode acompanhar uma travessia.
Respeitando o tempo.
Respeitando a pessoa.
Respeitando o que ainda não encontrou palavra.
Uma pergunta para levar consigo
O que está caminhando em você sem que ninguém veja?
Não para cobrar uma resposta.
Não para abrir a pedra à força.
Apenas para reconhecer.
Talvez exista uma decisão reunindo água.
Talvez exista um luto procurando margem.
Talvez exista uma alegria com medo de nascer.
Talvez você ainda não saiba.
E tudo bem.
A nascente não se envergonha do tempo subterrâneo.
Ela chega quando encontra passagem.
Eu segui a água por alguns metros
Ela passou por folhas.
Recebeu a sombra de uma raiz.
Refletiu um pedaço do céu.
Já não era apenas o fio que saía da pedra.
O caminho tinha começado a encontrar companhia.
Pensei nas mulheres que chegam até mim.
Cada uma trazendo águas que eu não vi nascer.
Histórias que caminharam longe antes do encontro.
Meu trabalho não é dizer por onde devem correr.
É escutar.
Honrar as margens.
E lembrar que nenhuma travessia precisa ser arrancada da pedra.
A água sabe procurar.
A vida também.
Assim é!
